quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Sem apoio da Caixa, clubes loteiam espaço na camisa e veem receita cair

IMAGEM_NOTICIA_5Oito meses após a Caixa Econômica Federal não renovar o contrato de patrocínio com 12 dos 20 times da Série A do Brasileiro, cinco deles continuam sem apoio. A maioria fez novos acordos, mas por valores menores do que era pago pelo banco estatal, que deixou de expor sua marca no futebol, em decisão do governo Jair Bolsonaro (PSL). Veja +

O banco diz que a "estratégia atual de marketing é voltada para projetos regionais, com maior impacto social e de incentivo ao desenvolvimento de atletas de base".

Dos clubes conseguiram novos apoiadores, cinco são patrocinados por bancos privados. Outros dois, Bahia e CSA, fecharam acordo com empresas regionais. O clube alagoano conseguiu ainda patrocínio do governo do estado.

Penúltimo colocado do Brasileiro, o time de Maceió, que estava na Série B em 2018, é o único que diz ter aumentado sua receita. A camisa da equipe passou a expor cinco marcas. Entre elas, a do governo do estado, que ofereceu R$ 1,5 milhão pelo espaço no uniforme do clube. O presidente do CSA, Rafael Tenório, é suplente do senador Renan Calheiros (PMDB-AL), pai do governador do estado.

"A receita saltou para R$ 4 milhões, a Caixa nos pagava R$ 1,5 milhão. O governo e os dois [patrocinadores] master [Carajás e Açaí Concept], juntos, me pagam R$ 3 milhões", afirmou Tenório à reportagem.

Lanterna do Brasileiro, o Avaí vive realidade distinta. Segundo o presidente do clube, Francisco José Battistotti, o espaço mais nobre foi oferecido, em vão, por metade do valor arrecadado em 2018.

"A Caixa pagou R$ 4 milhões no ano passado, eu baixei pela metade, cheguei a pedir R$ 1,8 milhão, mas não encontrei interessados", disse.

Na outra ponta da tabela, a agonia é a mesma. Líder com 32 pontos, o Santos fechou apenas acordos pontuais. Hoje, cede o espaço maias nobre da camisa, sem custos, para o Graacc, entidade que auxilia crianças e adolescentes com câncer. Procurada, a diretoria santista não quis comentar a ausência de um patrocínio principal.
O Bahia conseguiu, assim como CSA, um acordo com uma empresa local. O clube assinou com a Dular, revendedora de alimentos, e recebe R$ 9,5 milhões por ano, 65% do valor que era pago pela estatal. O contrato prevê ainda participação no lucro de alguns produtos.

"A diferença [em relação ao valor pago em 2018], vamos resolver com duas novas propriedades [espaços] na camisa", afirma Lênin Franco, gerente de negócios do Bahia.

A estratégia de lotear espaços no uniforme foi replicada por outros clubes, que chegam a expor cinco marcas.

"Aumentamos dois espaços menores na parte frontal, além do principal, e três nas costas", diz Lavor Neto, diretor de marketing do Ceará. "Tem muitos clubes explorando mais propriedades que a gente, mas isso não valoriza a marca e fica até confuso de identificá-la", admite.

Em julho, o clube cearense acertou com a FinanZero, que opera como correspondente bancário online e negocia empréstimos junto a instituições financeiras.

Athletico Paranaense, Cruzeiro e Fortaleza fecharam contrato com o banco Renner, que estampa a marca do seu produto digital Digi+, enquanto o Flamengo passou a exibir a marca da financeira BS2. Já o Atlético-MG retomou a parceira com o BMG.

"A Caixa pagava valores acima do mercado", admite Marcelo Paz, presidente do Fortaleza. "A nossa previsão era de arrecadar R$ 4 milhões. Vamos atingir R$ 3 milhões", diz.

Clube que tinha o maior contrato com a Caixa, o Flamengo não informa o valor do pago pelo novo patrocinador. "Estamos satisfeitos com os resultados", disse Maurício Cortela, diretor de marketing da equipe. Em 2018, o clube recebeu R$ 32,6 milhões pelo patrocínio do banco estatal.

Plínio Signorini Filho, CEO do Atlético-MG, acredita que, no longo prazo, poderá alcançar com o BMG um valor próximo ao que a estatal pagou ao clube em 2018 -R$ 13 milhões, incluindo premiações.

"O modelo atual é ganha-ganha. O clube e a empresa montaram um banco juntos, o BMG Galo, assim como foi feito no Corinthians", diz.

O banco é próximo ao clube mineiro. Ricardo Guimarães, principal acionista da instituição, presidiu o Atlético-MG de 2001 a 2006. No Brasileiro de 2011, o BMG estava na camisa de 11 times.

Nesses acordos, as instituições financeiras oferecem aos clubes participação nos lucros em alguns produtos. A ideia é usar a base de torcedores e de sócios para aumentar a carteira de clientes.

Ricardo Rotemberg, vice-presidente comercial e de marketing do Botafogo, diz que foi procurado por 12 bancos digitais, mas não aceitou o modelo proposto. O clube está sem patrocínio master.

José Colagrossi, diretor do Ibope Repucom, vê com cautela esse tipo de parceria.

"Os clubes entregam grande exposição aos bancos, o que gera um valor de mídia enorme, entretanto, sem garantia que as metas de receita serão atingidas", diz. "Num cenário pessimista, é possível que o clube tenha entregue mais de R$ 1 bilhão em mídia sem receita proporcional." BN

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